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Un aquatico!
como dizia o nosso poeta chileno, que andava a traduzir Klopstock.
Ele derramou, por sobre toda aquela garrafaria encarapuçada em metal, um olhar desconsolado:
— Não... É por causa das águas da Cidade, contaminadas, atulhadas de micróbios... Mas ainda não encontrei uma boa água que me convenha, que me satisfaça... Até sofro sede.
Desejei então conhecer o jantar do psicólogo e do simbolista — traçado, ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre lâminas de marfim. Começava honradamente por ostras clássicas, de Marennes. Depois aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa...
— É bom?
Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:
— Sim... Eu não tenho nunca apetite, já há tempos... Já há anos.
Do outro prato só compreendi que continha frangos e túbaras. Depois saboreariam aqueles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com geleia de noz. E por sobremesa simplesmente laranjas geladas em éter.
— Em éter, Jacinto?
O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação dum aroma que se evola.
— É novo... Parece que o éter desenvolve, faz aflorar a alma das frutas...
Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:
— Eis a Civilização!
E, descendo os Campos Elísios, encolhido no paletó, a cogitar neste prato simbólico, considerava a rudeza e o atolado atraso da minha Guiães, onde desde séculos a alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aqueles pomares que ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha ...
E (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade dum homem que, concebendo uma ideia da Vida, a realiza — e através dela e por ela recolhe a felicidade perfeita.
Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipe da Grã-Ventura!
[7]
N. da R. Palavra original em francês para duche.
III
No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pêlo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de
toilette
, toda de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola de que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto sumptuário da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto — porqu...
No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas, manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório — que era apenas um resumo das máquinas monumentais da sala de banho, a mais extremada maravilha do 202. Nestes mármores simplificados existiam unicamente dois jactos gradu...
zero
até
cem
; as duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em disciplina e servidão tantas á...
Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente comunhão com todas as funções da Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do clube da Espada e Alvo; comanditário do jornal
O Boulevard
; director da Companhia dos Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do Comité de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia porém aprazível ao meu amigo — porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos, frequentemente arremessava para o ...
ecarté
[8]
... E ainda se acavalavam outras indicações, escrevinhadas por Jacinto a lápis, — «Carroceiro —
Five-o’clock
dos Efrains — A pequena das Variedades — Levar a nota ao jornal...» Considerei o meu Príncipe. Estirado no divã, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.
Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava por ele, com impaciência, quase com cólera, como por um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossos pijamas de pelúcia cor de ouro velho, consta...
Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico ressoava, chamando ao almoço. Com o
Figaro
ou as
Novidades
abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada, consultando o relógio, exalando com a face moída o seu queixume eterno:
— Que maçada! E depois uma noite abominável, enrodilhada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grilo para me esfregar com terebentina... Uma seca!
Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, o seduzia; — e, como através do seu tumulto matinal fumava incontáveis
cigarettes
[9]
que o ressequiam, começava por se encharcar com um imenso copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada dum Cognac raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa. Depois, à pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta; ...
— E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?
— Eu?
Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas cavas do colete:
— Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau de canela, rebuscava através da numerosa Civilização da Cidade uma ocupação que me encantasse. Mas apenas sugeria uma exposição, ou uma conferência, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolados:
— Por fim nem vale a pena, é uma seca!
Acendia outra das
cigarettes
russas, onde rebrilhava o seu nome, impresso a ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os fios do bigode, ainda escutava, à porta da biblioteca, o seu procurador, o nédio e majestoso Laporte. E enfim, seguido dum criado, que sobraçava um maço tremendo de jornais para lhe abastecer o
coupé
, o Príncipe da Grã-Ventura mergulhava na Cidade.
Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o céu de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, saíamos depois do almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outrora, na nossa idade de estudantes, um gozo muito querido de Jacinto — porque neles mais intensam...
Boulevards
, que o denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu egoísmo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no meu braço, este Jacinto novo começou a lamentar que as ruas, na nossa Civilização, não fossem calçadas ...
— Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... Não vale a pena!
Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me impressionava o seu horror pela multidão — por certos efeitos da multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os «sulcos».
— Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velh...