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Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservav...
Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manhã de chuva, recebi uma carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de lamentações sobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a pesada gerência dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas» — me ordenava que recolhesse à nos...
Jornal dos Debates
, censurei severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a flor do meu Saber Jurídico. Depois num
post scriptum
[6]
ele acrescentava: «O tempo aqui está lindo, o que se pode chamar de rosas, e tua santa tia muito se recomenda, que anda lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis anos que casámos, temos cá o abade e o Quintais a jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada.»
Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicência. Há quantos anos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas do nosso pátio vergariam sob os seus grandes cachos amarelos. Um pedaço de céu azul, do azul de Guiães...
Assobiando um fado meigo tirei de baixo da cama a minha velha mala, e meti solicitamente entre calças e peúgas um Tratado de Direito Civil, para aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para Guiães. O meu camarada recuou...
— Para Guiães!... Oh Zé Fernandes, que horror!
E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão longe da Cidade, uma pouca de alma dentro dum pouco de corpo. «Leva uma poltrona! Leva a
Enciclopédia Geral
! Leva caixas de aspargos!...»
Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era arbusto desarreigado que não reviverá. A mágoa com que me acompanhou ao comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quase solucei — com s...
Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso pátio; comi com delícia a sopa dourada da tia Vicência; de tamancos nos pés assisti à ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchand...
[1]
N. da R. Unidade antiga da moeda de Portugal, equivalente a mil escudos. O escudo português, por ocasião da proclamação da República, veio substituir aquela que era designada por Réis. Foi a última moeda antes do euro. O conto foi uma unidade herdada do sistema fiduciário da Monarquia, razão pela qual algumas pessoas s...
[2]
N. da R. Jardim da Sofia, em Coimbra.
[3]
N. da R. Palavra original em alemão para cerveja do tipo lager de sabor forte e encorpado, e quase sempre de cor escura e avermelhada.
[4]
N. da R. Expressão original em inglês para uma bebida alcoólica feita de brandy e água com gás.
[5]
N. da R. Palavra original em inglês para carros eléctricos.
[6]
N. da R. Expressão latina, geralmente abreviada como P.S., significa literalmente «pós-escrito», «escrito depois».
II
Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu donde fugiam anéis dum cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas...
— Oh Jacinto!
— Oh Zé Fernandes!
O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade:
— Há sete anos!...
— Há sete anos!...
E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda entre as duas áleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida que a lã dum tapete. No meio o vaso coríntico esperava Abril para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, ...
Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto — apesar de o 202 ter somente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Sr.a D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele d...
Eu murmurei nas profundidades do meu assombrado ser:
— Eis a civilização!
Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de majestade e sombra, onde reconheci a biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes eléctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes monumentais, todas de ébano...
Não contive a minha admiração:
— Oh Jacinto! Que depósito!
Ele murmurou, num sorriso descorado:
— Há que ler, há que ler...
Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as dum comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também n...
Ele erguera uma tapeçaria — entrámos no seu gabinete de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como que a realidade. O damasco das paredes, os divãs, as madeiras, eram verdes, dum verde profundo de folha de louro. Sedas verdes envolviam as luzes eléctr...
Mas Jacinto batia nas almofadas do divã, onde se enterrara com um modo cansado que eu não lhe conhecia:
— Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessário reatarmos estas nossas vidas, tão apartadas há sete anos!... Em Guiães, sete anos! Que fizeste tu?
— E tu, que tens feito, Jacinto?
O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera — cumprira com serenidade todas as funções, as que pertencem à matéria e as que pertencem ao espírito...
— E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o 202!
Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga vivacidade:
— Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências.
Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «Está lá? — Está lá?», examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas,...
— Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr.
E, com efeito, duma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa
Azoff
entrara em Marselha com avaria!